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Contexto | 1980

O ano de 1980 começa, para o movimento sindical, ainda sob o impacto da violenta reação à greve dos metalúrgicos de São Paulo, na qual foi assassinado o operário Santo Dias da Silva, por um policial militar, em frente à fábrica Sylvania, em Santo Amaro, no dia 30 de novembro de 79. Como parte da reação à greve, muitos operários foram presos, outros tantos tinham sofrido violentas agressões e registraram-se até invasões de igrejas e bombas em casas paroquiais.

Ao mesmo tempo, o ano começava também com bons frutos, na região do ABCD, do trabalho de organização da campanha salarial na base metalúrgica, iniciado no segundo semestre de 79. Desse trabalho resultou a composição de uma Comissão de Salário e Mobilização, composta por 425 trabalhadores. Já a partir de janeiro, diariamente, os diretores dos sindicatos de metalúrgicos do ABCD iam às portas de fábrica dialogar com a categoria a respeito das reivindicações da campanha salarial de 80. A corrosão dos salários chegava, naquele momento, a 84,3% nos últimos doze meses! Ao mesmo tempo, a rotatividade da mão-de-obra no ABC favorecia o achatamento dos salários num momento de crise econômica tão difícil.

A greve foi decidida no dia 30 de março, e foi indiscutivelmente o fato mais marcante na história do movimento sindical brasileiro em 1980. Havia 100 mil metalúrgicos em assembléia no Estádio da Vila Euclides para a deflagração da greve. Dia sim, dia não, reuniam-se ali, em assembléia, 80 mil metalúrgicos em média. Integravam também as reivindicações: a estabilidade no emprego, o pagamento de 100% nas horas extras de domingos e feriados, o piso salarial, o seguro de acidentados, o delegado sindical e a semana de 40 horas. A greve demonstrava a capacidade de organização e de liderança dos novos dirigentes sindicais.

O TRT, que dois dias depois de iniciada a greve dá sinais de negociação, uma semana depois, pressionado pelo governo, declara a greve ilegal. Tem início a repressão federal ao movimento grevista, diferente da repressão estadual, a serviço das empresas, que marcou a greve do final de 79. As assembléias da Vila Euclides passam a ser sobrevoadas, todas as vezes, por helicópteros do Exército, em vôos rasantes, com metralhadoras à mostra. Tenta-se, por tudo, intimidar os trabalhadores, mas estes respondem levantando a bandeira brasileira e cantando o Hino Nacional.

Seguiu-se a intervenção federal nos sindicatos de São Bernardo e de Santo André e o afastamento dos dirigentes sindicais, em meados de abril. No dia 19 de abril, os principais dirigentes são presos, enquadrados na Lei de Segurança Nacional. As assembléias no Estádio e em praça pública foram proibidas. A Igreja Católica abre a porta dos templos para a reunião dos trabalhadores: as assembléias se transferem para a igreja matriz de São Bernardo, com o apoio de dom Cláudio Hummes. O 1° de Maio foi uma manifestação grandiosa, que deu fôlego ao movimento grevista. A repressão estava presente: helicóptero do Exército, 8 mil policiais, armas de todos os calibres, bombas de gás, cães pastores, cavalos, sete caminhões de transporte de tropas da PM, dois carros de bombeiros, carros “Brucutu”, dezenas de viaturas da Dops, DOI-Codi, Polícia Federal, tático móvel, radiopatrulhas, Rota etc. As primeiras bombas de gás são explodidas na praça, pelas 10 da manhã, com crianças na rua. As pessoas cantam o Hino Nacional em frente à igreja matriz, em meio à fumaça. Dentro da Igreja, abarrotada, acontece a celebração religiosa, presidida pelo bispo local. Há muita tensão, e o conflito parece iminente. As lideranças, pressionadas pela base, decidem manter a passeata, que alguns sugeriam cancelar. Às 11 horas, o Exército, que comandava todo o esquema repressivo, decide liberar a cidade e a praça para os manifestantes. Não haveria como impedir a massa humana dos trabalhadores e suas famílias, a não ser promovendo uma carnificina. Não havia governo que sustentasse tal custo político. A passeata saiu, vitoriosa, com algo entre 100 e 120 mil pessoas!

A mobilização pelo Fundo de Greve, que teve o apoio de quase 300 entidades, ganhou dimensão nacional, e fez da greve dos metalúrgicos do ABC um símbolo nacional de esperança e de luta dos trabalhadores. O fundo chegou a distribuir alimentos para mais de 45 mil famílias. No auge, a greve parou 330 mil metalúrgicos no Estado de São Paulo.

A partir do 30° dia, a pressão patronal aumentou, com campanha da Fiesp ameaçando de demissão por abandono de emprego. A greve começou a declinar, com repressão militar, força contrária do judiciário, campanha negativa da imprensa, intervenção no sindicato e dirigentes presos. A greve passou de 40 dias.
O saldo mais importante foi a elevação do nível de consciência dos trabalhadores que participaram. Com tudo o que se passou na campanha salarial de 1980, a categoria dos metalúrgicos do ABCD tomou consciência das relações entre o governo, a Justiça e o empresariado; em outras palavras, compreenderam o sentido do Estado capitalista. De fato, a ação federal direta foi didática a respeito do papel do Estado. A greve deixou também um importante saldo positivo em experiência de mobilização e organização. As principais avaliações apontam que os trabalhadores não saíram abatidos, mas revoltados e com uma perspectiva diferente em relação ao governo. Mas a greve teve também seu claro saldo negativo de imediato: demissões em massa e descontos de dias parados. Sua repercussão, somada ao agravamento da crise e do desemprego, foi vista no refluxo dos movimentos grevistas que se seguiria a ela.

Da parte do governo federal as coisas não foram absolutamente tranqüilas. Ao contrário, pesquisas de opinião mostraram que o governo saiu muito desgastado politicamente, e não apenas no âmbito do Estado de São Paulo.

Greves de massa se espalham pelo país: professores da PUC de Salvador, portuários de Santos, operários da Hansen de Joinville (março); professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro, magistério de Minas Gerais (abril); trabalhadores rurais nas fazendas de café de Vitória da Conquista e Barra do Choça (ES); Fiat Diesel do Brasil (agosto); professores das universidades federais; 240 mil trabalhadores canavieiros em Pernambuco (setembro); professores paranaenses de 1º e 2º graus (outubro); professores universitários goianos, magistério gaúcho da universidade federal, professores da USP (novembro) e outros.

Outros feitos da classe trabalhadora

Com expressiva participação de lideranças do chamado “novo sindicalismo”, ou sindicalistas “autênticos”, é criado o Partido dos Trabalhadores, em maio.
No campo da organização específica do movimento sindical foram marcantes alguns eventos que articulavam diversos movimentos sociais, entidades sindicais e grupos de oposição sindical. Os encontros de João Monlevade (MG), em fevereiro, e de “São Bernardo” (de fato, em Taboão da Serra, SP), em julho, constituíam espaço de construção de novas propostas para a organização dos trabalhadores. No âmbito especificamente sindical, foi importante o Encontro Nacional das Oposições Sindicais (Enos), em maio e, na seqüência, o Encontro Nacional dos Trabalhadores em Oposição à Estrutura Sindical (ENTOES). Realizado em Nova Iguaçu (RJ), em setembro, o ENTOES reuniu 500 delegados de 15 Estados, e consolidou uma aproximação das oposições com os chamados sindicalistas “autênticos”. Na sua Coordenação Nacional estiveram vários dirigentes cassados: Lula, Olívio Dutra e João Paulo Pires de Vasconcelos. Todos esses encontros foram o lugar da gestação da idéia de uma conferência nacional dos trabalhadores, que vingaria em 1981.


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